Toda revolução começa com um corpo que se recusa a recuar. Na madrugada de 28 de junho de 1969, num bar abafado de Greenwich Village, foram os corpos mais expostos da cidade — travestis, drag queens, lésbicas e rapazes pobres — que disseram não à liturgia da humilhação que a polícia repetia havia anos. Do calor daquela noite nasceu o movimento contemporâneo por direitos LGBTQIAPN+ e, com ele, a certeza que atravessa este texto: a dignidade das minorias sexuais e de gênero foi arrancada à força, contra a inércia das instituições, e cada ano de demora teve o seu preço, gravado primeiro na carne e, como tentarei mostrar, também nas ciências econômicas e na análise de bem-estar.

Escrevo como um observador e quero aproximar algumas linguagens que raramente se cruzam: a dos versos e a dos modelos, dados e evidências. Whitman fantasiou cidades inseparáveis, de braços dados pelo amor dos camaradas. A teoria econômica, em seu idioma mais árido, diz algo que rima com esse sonho: as sociedades que abraçam os seus florescem, e aquelas que expulsam parte de si definham. A dimensão moral da igualdade permanece soberana, e nada do que se segue pretende rebaixá-la a cálculo. Sustento apenas que, mesmo sob a ótica fria da eficiência, excluir e discriminar possuem preço elevado para a sociedade.

Uma cronologia que não acredita em linha reta

O progresso dos direitos, no mundo, recusa o consolo das marchas triunfais. A Associação Psiquiátrica Americana riscou a homossexualidade de seu catálogo de doenças em 1973; a Organização Mundial da Saúde só o fez em 17 de maio de 1990, data que hoje batiza o Dia Internacional contra a LGBTfobia. Os Países Baixos celebraram o primeiro casamento igualitário em 2001, e os Estados Unidos levaram outros 14 anos para chegar lá, em 2015, com Obergefell v. Hodges. A Índia descriminalizou o desejo entre iguais em 2018, sepultando uma lei que o império britânico lhe deixara de herança.

Seria ingênuo ler essa sequência como uma escada que apenas sobe. Mais de sessenta países ainda tratam o amor entre pessoas do mesmo sexo como crime, e em alguns deles a pena é a morte. Mesmo democracias maduras vivem hoje a ressaca de retrocessos legislativos, voltados com fúria particular contra as pessoas trans. A história dos direitos lembra menos uma escada do que a maré, pois avança, recua e volta a avançar sob a lua. Há de se tratar esse processo como algo não linear e, por vezes, estacionário.

O recorte nacional

A trajetória brasileira tem o seu paradoxo. Diferentemente de boa parte do Ocidente, o país descriminalizou a sodomia cedo, ainda no Código Criminal do Império, em 1830, e nunca, na República, reescreveu esse crime. A lei calou-se, mas a perseguição encontrou outras bocas através de diferentes facetas, como o estigma médico, a violência das esquinas e a porta fechada do emprego. Fora assim por quase dois séculos, com quase nenhum progresso considerável.

Os avanços formais vieram tarde e, quase sempre, pela mão do Judiciário. Em 2011, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a união estável entre pessoas do mesmo sexo (STF, 2011); em 2013, a Resolução nº 175 do Conselho Nacional de Justiça abriu os cartórios ao casamento civil homoafetivo (CNJ, 2013); em 2018, a Corte garantiu às pessoas trans mudar nome e gênero no registro sem cirurgia nem laudo (STF, 2018); em 2019, equiparou a homofobia e a transfobia ao racismo (STF, 2019).

Há uma fragilidade nessa conquista que convém nomear. Direitos que repousam sobre a interpretação de onze ministros, sem o lastro de uma maioria parlamentar, vivem sob a ameaça constante de serem desfeitos, e essa precariedade é, ela mesma, uma violência de baixa intensidade, jurídica e econômica, sobre milhões de pessoas.

Enquanto a jurisprudência subia os degraus do tribunal, nas ruas seguia-se matando aos montes toda e qualquer minoria. Pelo décimo sétimo ano consecutivo, o Brasil é o país que mais assassina pessoas trans no planeta (ANTRA, 2025). Em 2024, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais contou 122 corpos, número um pouco menor que o de 2023, ainda assim próximo da média anual de cerca de 125 mortes (ANTRA, 2025). A expectativa de vida dessa população ronda os 35 anos, contra os 73 e 79 de homens e mulheres cisgênero; 78% das vítimas eram negras, o que prova que grande parte dessa violência possui cor, classe e traz consigo grande porção de preconceitos adjacentes (ANTRA, 2025).

A aritmética do desperdício

O argumento econômico tem origem clássica. Em 1957, Gary Becker mostrou, em The Economics of Discrimination, que o preconceito cobra um pedágio de quem o pratica e da economia inteira. O empregador que recusa um trabalhador competente por aversão a quem ele ama ou a como se reconhece renuncia a produtividade e, quando esse gesto vira hábito coletivo, o país inteiro passa a produzir abaixo do que poderia. Em linguagem seca e técnica, o preconceito subestima o capital humano e, por consequência, impede uma sociedade de atingir seu máximo nível de riqueza.

Parte dessa intuição virou medida. A economista M. V. Lee Badgett (2014), em estudo para o Banco Mundial, calculou que a exclusão das pessoas LGBTQIAPN+ na Índia, no trabalho, na escola e na saúde, subtraía até 1,7% do PIB a cada ano. Num trabalho mais amplo, que percorreu 132 países entre 1966 e 2011, Badgett, Waaldijk e Rodgers (2019) encontraram um elo robusto entre direitos e prosperidade: a cada degrau ganho numa escala de oito direitos, o produto por habitante cresceu, em média, cerca de dois mil dólares. Trata-se de uma relação de causalidade mútua: economias mais ricas tendem a reconhecer mais direitos, e o avanço desses direitos também impulsiona o desenvolvimento econômico. Em seu balanço mais recente, Badgett (2020) cravou uma estimativa contida: a homofobia e a transfobia custam, ao menos, 1% do produto de uma nação, estimativa extremamente relevante não somente no nível político, mas também no da riqueza e da análise das desigualdades regionais.

Os caminhos por onde essa perda escoa são visíveis e mensuráveis. No mercado de trabalho, a exclusão rebaixa a produção muito abaixo do possível e, no Brasil, segundo levantamento do Fórum de Empresas e Direitos LGBTQIAPN+ reportado pela ANTRA (2025), pessoas trans ocupam apenas 0,38% das vagas formais, abismo que empurra a maioria para a informalidade ou para o trabalho sexual, com frequência os únicos lugares que não as expulsam logo à porta. Na saúde, o estigma adoece, lota o sistema público e ceifa anos de vidas produtivas; uma população que mal alcança os 35 anos tem o seu futuro econômico cortado ao meio. Na educação, o assédio, a evasão e o abandono familiar interrompem formações e empobrecem o capital humano do país. E há a inovação: desde Florida (2002), sabe-se que as cidades abertas à diversidade atraem talento e fabricam o novo, de modo que os lugares que enxotam pessoas por aquilo que elas são acabam por enxotar, junto, parte da inteligência que move a economia do conhecimento.

Convém, por fim, erguer os olhos dos dados. Sen (2000) ensinou-nos a ver o desenvolvimento como a ampliação das liberdades reais de que cada pessoa dispõe para viver a vida que tem razão de valorizar. Sob essa luz, negar a alguém o trabalho, a saúde, a segurança e o reconhecimento confere uma corrosiva subtração do desenvolvimento no sentido mais exato que a economia atribui à palavra, muito além da ferida ética que isso abre. Há um valor contido nesses direitos e parte deste é de interesse da própria sociedade, embora ela ainda não saiba totalmente.

Mártires

As percentagens têm rosto, as vítimas têm nomes, histórias, famílias, conquistas e contribuições inestimáveis ao mundo. Em 1952, um tribunal britânico condenou Alan Turing, o matemático que decifrara os códigos da máquina “Enigma” e ajudou a abreviar a Segunda Guerra, o homem cujas ideias fundaram a ciência da computação e, com ela, boa parte da economia em que hoje vivemos. Seu crime, aos olhos da lei, foi amar outro homem. A pena imposta foi a castração química. Dois anos depois, aos 41, Turing estava morto, vítima de um veneno enraizado na atmosfera britânica que o forçou a tirar sua própria vida. A civilização que prospera sobre as máquinas que ele imaginou tratou o seu inventor como criminoso e o destruiu, e nenhum modelo ou dado pode medir — ou, estritamente, talvez possa — o que se perde quando uma mente assim é calada na metade do caminho.

Turing não habita sozinho essa contabilidade. Oscar Wilde, o mais cintilante dramaturgo de sua geração, deixou os dois anos de trabalhos forçados na prisão de Reading com a saúde e a obra em ruínas, e morreu no exílio em 1900. Federico García Lorca, voz maior da poesia espanhola, foi fuzilado em 1936, nos primeiros dias da Guerra Civil, e a sua homossexualidade contou entre os ódios que armaram a mão de quem o matou. Bayard Rustin, o estrategista que desenhou a Marcha sobre Washington de 1963 ao lado de Martin Luther King, foi empurrado para as sombras do próprio movimento dos direitos civis por ser um homem gay, e só recebeu reconhecimento décadas depois de morto. E no Brasil, a cada nome que a ANTRA acrescenta ao seu dossiê, repete-se em pequena escala o mesmo gesto: uma vida produtiva interrompida antes da hora. A lista poderia seguir por páginas e, ainda assim, guardaria apenas os nomes que a história reteve; os anônimos, os incontáveis professores, operários, artistas e cientistas que o preconceito apagou antes da primeira flor, não cabem em estatística alguma.

O amor dos camaradas

É preciso dizer com todas as letras, para que não haja engano. O argumento econômico cumpre o papel de reforço, sustentando por fora aquilo que a moral já sustenta por dentro, cuja importância é muito maior quando comparada com a perspectiva técnica e quantitativa. A dignidade de uma pessoa LGBTQIAPN+ não depende de sua rentabilidade, e o direito de existir não se submete a auditoria. Aqueles que submetem tal discussão ao apelo exclusivo de dados econômicos e descartam o mais importante, os direitos civis, já perderam o essencial: sua humanidade e sua capacidade de ter amor e empatia ao próximo.

Ainda assim, vale enunciá-lo, por razão de combate. Durante décadas, os adversários da igualdade venderam a inclusão como luxo, capricho de elites urbanas, item dispensável da economia dita séria. Os números viram esse argumento do avesso. O caro, o oneroso, o que de fato empobrece um país é o gesto de excluir. A defesa da discriminação, além de abjeta, confere sabotagem ao desenvolvimento social, ao projeto de país e ao futuro de todos nós e de nossos filhos. Sem o saber, um indivíduo intolerante atua, dentro de sua incapacidade de ser racional e de amar, contra o próprio patrimônio sob a égide de uma patética defesa de valores tradicionais, cuja estrutura jamais fora referência alguma de uma sociedade funcional. A consequência? Uma nação mais pobre, menos produtiva e menos criativa do que poderia ser.

O orgulho nasceu de um motim porque a dignidade fora negada por tempo demais, e hoje sabemos que essa negativa nunca saiu de graça: pagou-se em vidas interrompidas, em anos roubados, em talentos desperdiçados, em ideias que jamais viram a luz do sol. Reconhecer direitos, punir a violência, garantir trabalho e saúde é, no fim, uma sociedade investindo em si mesma, reconquistando a fronteira que o medo havia confiscado e, sobretudo, entregando aos indivíduos seu lugar de direito: o mundo inteiro. Mundo este para sentir, amar, frustrar-se, superar e conquistar, mas que parte dessa vivência não resida na luta para existir, e sim na evolução de si. Whitman imaginou cidades de braços dados pelo amor dos camaradas. A economia, prosaica, apenas confirma o que a poesia já profetizava: nenhuma cidade floresce expulsando os seus. Que o próximo 28 de junho nos encontre com menos nomes na lista dos mortos, com mais de todos aqueles que hoje lutam por seus direitos de serem diferentes escrevendo a própria história e com uma oportunidade de usufruir da razão e da poesia de viver de modo que este tenha deixado de ser denúncia. Não há verso, nem número, mais belo do que esse.

Dedico este texto a todos que, por causa do preconceito, perderam vidas, sonhos, famílias, sorrisos e abraços.

Referências

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS (ANTRA). Dossiê: assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2024. Brasília, DF: ANTRA, 2025.

BADGETT, M. V. Lee. The economic cost of stigma and the exclusion of LGBT people: a case study of India. Washington, DC: World Bank, 2014.

BADGETT, M. V. Lee. The economic case for LGBT equality: why fair and equal treatment benefits us all. Boston: Beacon Press, 2020.

BADGETT, M. V. Lee; WAALDIJK, Kees; RODGERS, Yana van der Meulen. The relationship between LGBT inclusion and economic development: macro-level evidence. World Development, v. 120, p. 1-14, 2019.

BECKER, Gary S. The economics of discrimination. Chicago: University of Chicago Press, 1957.

BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4.277 e Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 132. Relator: Min. Ayres Britto. Brasília, DF, 5 maio 2011.

BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Resolução nº 175, de 14 de maio de 2013. Brasília, DF: CNJ, 2013.

BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4.275. Relator: Min. Marco Aurélio. Brasília, DF, 1 mar. 2018.

BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão nº 26. Relator: Min. Celso de Mello. Brasília, DF, 13 jun. 2019.

FLORIDA, Richard. The rise of the creative class: and how it is transforming work, leisure, community and everyday life. New York: Basic Books, 2002.

SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

WHITMAN, Walt. Leaves of grass. Philadelphia: David McKay, 1891-1892.

Texto publicado originalmente no Substack de José Oliveira ↗